AGORA É MASSA!
Felipe Massa se prepara para encarar mais uma temporada e diz quem é amigo de verdade na Fórmula 1
POR RODRIGO FRANÇA

E o Timo Glock, hein?
O mundo caiu na cabeça dele... Mas as pessoas preferem não enxergar que ele estava com pneu diferente e começou chover bem naquela hora. Isso acontece na F-1. Eu sei perder e, se não fosse o Timo Glock, fosse outro, não ia mudar nada. Ele estava em quinto lugar, estava numa super corrida, mas não conseguiu segurar [por causa da chuva]. Fazer o quê?
Não passou pela sua cabeça sair xingando meio mundo pelo que tinha acontecido?
Não, xingamento não. O que passou foi aquele negócio do tipo “não acredito”, porque foi um final incrível, não conseguia acreditar. Mas depois devagarzinho você começa a acreditar no que está acontecendo. Que não estava sonhando, era realidade.
Você venceu a corrida, mas saiu do carro chorando. Como foi vencer e perder ao mesmo tempo?
Saí do carro e chorei mais de frustração de ter perdido o título do que de felicidade (por ter vencido o GP Brasil). Felicidade é mais para você curtir mesmo o momento, pular, gritar. Você tem um jeito diferente de reação.
Existe a célebre frase de Nelson Piquet que o 2º é o primeiro. Você acha que a torcida encarou o final do GP Brasil desta forma?
Eu não corro para chegar em segundo.Eu corro para vencer. E sempre vou pensar dessa maneira. E a gente chegou em segundo no campeonato, mas a gente venceu a corrida, e foi quem mais venceu no ano. Não existe ninguém que diga que Hamilton não mereceu o título, mas por trabalho, resultado em pista, a gente também merecia.
Logo depois da corrida, você mostrou resignação, com a frase “Deus sabe o que faz”. Foi um discurso bem distinto do que aquele famoso papo de perdedor...
Acho que é exatamente isso. Quando penso “Deus sabe o que faz” é porque, se era para acontecer dessa maneira, é porque tinha que ter sido assim. Tudo na última volta, com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo... é porque tinha que ser dessa maneira. O jeito é você olhar para frente e não usar isso como decepção. Você tem que fazer o seu melhor dentro da pista e isso eu fiz. Então o resto aconteceu e a gente tem que pensar no próximo passo...
Você se considera um cara religioso?
Eu sou católico, rezo toda noite antes de dormir. Em toda corrida, antes de entrar no carro no grid, costumo rezar também. Não sou de pedir, sou mais de agradecer e buscar proteção. Essa é a minha reza. Não existe pedir para acontecer alguma coisa. Acho que as coisas acontecem porque têm que acontecer.
O que falta para ser campeão de F-1?
Para vencer o campeonato, você tem que ter todos os ingredientes: sorte, resultados, velocidade, ser constante na corrida... Tudo isso faz você ser campeão. Se alguma coisa faltar, você não vai ser campeão. Em 2008, faltou alguma coisinha para ser campeão e não me sinto frustrado por isso, de jeito nenhum. Na vida, o que aconteceu é porque tinha que acontecer dessa maneira. Tem que sair de cabeça erguida independente se a gente chegou em 2°.
Para 2009, quem mais deve estar nesta luta?
A expectativa de uma equipe como a Ferrari é sempre de brigar pelo título. Neste ano, no entanto, qualquer previsão fica ainda mais complicada porque só nos testes de Jerez é que nos encontraríamos com a McLaren, que vem sendo nossa principal adversária. Como de hábito, é na primeira corrida, quando todos estiverem nas mesmas condições, que vamos conhecer o potencial de cada equipe. Agora, de uma coisa tenho certeza: quem não estiver usando KERS ficará para trás, porque a diferença em tempo de volta é notável pelo que vimos nos treinos no Bahrein.
Como avaliou o novo carro e, por tabela, as novas regras da F-1 em 2009?
Tivemos problemas com o tempo chuvoso nos primeiros testes e até mesmo no Bahrein, onde supostamente as condições seriam bem melhores, enfrentamos dois dias de tempestade de areia. Ainda bastante cru, o F60 me pareceu constante e talvez até um pouco mais rápido do que eu esperava. E, antes da abertura da temporada, ainda receberia uma série de evoluções. Foi legal também para constatar que o KERS está funcionando num nível muito alto. Os carros estão bem diferentes. Além do KERS, voltaram os pneus slick, mexeram bastante na aerodinâmica, mas a adaptação não tem sido problema.
Como a crise mundial está afetando o trabalho dos pilotos e das equipes neste ano?
Acredito que a crise está atingindo principalmente algumas equipes, que perderam patrocínios de peso ou já foram comunicadas por empresas que não haverá renovação ao final da temporada. Os dirigentes estão procurando fazer a parte deles, por meio de limitações no regulamento que reduzam os custos, como no aumento da utilizaçao dos motores e na diminuição do número de testes. Por causa disso, certas equipes foram obrigadas a fazer uma remanejação de pessoal ou até mesmo o corte de funcionários. É uma crise global, que atinge alguns setores com maior intensidade, como o automobilístico e o financeiro, e por isso era inevitável que chegasse também à Fórmula 1.
Sua mulher Raffaela te apelidou de “pedrinha”. Que história é essa?
Sou um cara meio frio (risos). Tem muita coisa do dia-a-dia que ela costuma se preocupar e tem tanta coisa que ela me fala que eu nem estou aí, entra numa orelha e sai pela outra... Ela é muito importante para mim. Um piloto tem que ter a sua vida pessoal tranquila. Se você sai do autódromo, vai para o hotel e tem um problema da vida pessoal para resolver, isso afeta seu lado profissional. Não dá para ficar brigando com mulher em final de semana de corrida: ela tem que te dar assistência para você entrar 100% no carro e só ter aquilo para pensar. Você tem que ter uma pessoa ao seu lado que te joga pra cima e te põe para frente. Isso te dá uma imensa segurança no seu trabalho.
E a tentação? No paddock da F-1, a mulherada é muito ousada?
Lógico que sempre tem a fã ousada. Uma vez uma fã entregou na minha mão uma calcinha em pleno paddock! Mas você tem o seu foco na cabeça, sou um cara bem casado. É claro que às vezes você olha para a mulher e pensa: pô, que gostosa!
E as famosas festas da F-1? Seu companheiro de equipe [Kimi Raikkonen] carrega a fama de beberrão...
(risos) Bom, não sou o cara que só bebe água. Gosto de vez em quando de tomar um vinho, uma cerveja com meus amigos, contar besteiras... Isso faz parte e não tem problema nenhum. Só que tem saber o momento certo disso.
Você venceu na F-1 pela primeira vez [GP da Turquia de 2006] quando o Michael Schumacher ainda estava na pista. Isso faz a conquista especial?
Venci duas vezes em cima do Schumacher, e ele ainda estava disputando o campeonato. Sem dúvida nenhuma, foi um sentimento ainda mais forte, emocionante, uma realização maior.
O alemão brincava com você dizendo: “Xi, a molecada já está dando muito trabalho”?
Lógico que ele falava. Ele parou por cima, num nível muito forte e estava certo de ter feito isso. Parar por cima é totalmente diferente. Ele já começou a sentir que dali para frente poderia perder a motivação, a vontade... Velocidade ele teria porque um piloto não perde a velocidade. Mas para você ser vencedor tem que se dedicar. E talvez após tantos anos, tanto tempo, você tenha outras coisas na sua mente. Tua família, por exemplo. Quer ter mais tempo para você, para curtir. Então, quando isso vem na sua cabeça, é hora de parar.
O que o Schumacher tinha de tão especial?
Ele tinha uma enorme capacidade de trabalhar a concentração, de conseguir se superar sempre. O Schumacher nunca foi um cara que acreditasse 100% na vitória. Ele sabia que podia acontecer algo de errado e estava preparado para isso. Não pensava que haveria o problema, mas estava preparado para ele, para superar e vencer. E o Schumacher nunca achou que ele fosse o melhor. Sabia da capacidade dele como piloto, mas nunca achou que fosse acima de todos. Por isso, ele venceu tantas vezes. E por isso equipe gostava tanto dele, porque ele tinha o pé no chão. A partir do momento em que você acha que é o melhor, você começa a cair.
Vida de ídolo no Brasil, piloto da Ferrari... Tem medo de ser um dia acusado de estrelismo?
É um risco. Mas isso não me afeta. Tenho o pé no chão e a humildade de olhar para trás e lembrar de onde vim, dos momentos difíceis... Vendo assim, você lembra que não está acima de ninguém, que tem muito que aprender, muito que evoluir. Essa é a maneira que eu penso.
Como faz para se livrar de quem só se aproxima por interesse?
Sou um cara que cultivas as mesmas amizades do passado. Tenho amigos de Botucatu (SP) que cresceram comigo. Claro que tem muito penetra, muita gente que quer se aproveitar porque você é famoso. Nisso você tem que ser esperto, senão passa por tonto em muitas coisas. Então você tem que ser esperto naquilo que acontece em torno de você. Pra você não fazer papel de otário.
Você já conheceu o buraco da demissão na F-1 [na Sauber em 2002, após sua primeira temporada]. Deu para ver quem eram os amigos de verdade nestas horas?
Sem dúvida. Eu sei quem são meus amigos e realmente gostam de mim como Felipe Massa e não como piloto da Ferrari ou o famoso da F-1.
Mas na F-1, é mais difícil ter amizade, né?
Amizade é difícil, mas respeito tem. Eu respeito todos os meus colegas de trabalho, todos os pilotos e sou respeitado também. Isso é importante. Amigo é outra coisa... Amigo é uma palavra forte demais. É muito difícil você fazer amizade, mas considero como amigos o próprio Schumacher e o Rubinho, por exemplo.
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